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O Rio Lethes e o Lugar da Passagem

lendariolima

O historiador Estrabão foi o primeiro a comparar o rio Lima ao lendário Lethes: o Rio do Esquecimento.

Segundo a sua opinião, este apelido resultou de um incidente ocorrido entre túrdulos e celtas que, aquando de uma expedição, querendo atravessar este rio, se envolveram em desordem – o que resultou na morte do líder, ficando os soldados dispersos pela Ribeira Lima, esquecendo-se inteiramente da dita expedição e dos motivos a ela inerentes.

A civilização romana, contemporânea de Estrabão e dominante na Europa Mediterrânica à época, cultivava a crença de que existia uma fronteira entre o mundo dos vivos e o mundo d´além morte.

Tratava-se do Lethes, também chamado Rio do Esquecimento por as suas águas terem o efeito de apagar a memória, de fazer esquecer tudo o que acontecera em vida. Assim, quem o atravessasse, recomeçava uma nova vida liberta do passado.


No ano de 136 a.C. um exército romano, comandado pelo centurião Decius Junius Brutos, chegou ao território que veio a ser Portugal para fazer guerra aos Galaicos. Desembarcando a Sul dirigiu-se para Norte, em direcção a Finniterra na Galiza, onde constava que o sol se punha no mar e que aí viviam os mortos.

Os soldados atravessaram o Tejo e logo depois o Zêzere, o Mondego, o Vouga, o Douro sem qualquer problema. Naturalmente, ao chegarem à margem do rio Lima, encontrando-se em frente a Lanheses, já que percorriam a via romana n.º XX “Per Loca Marítima”, Décimo Juno Bruto antecipou-se para o atravessar, por ir à frente, tendo-o conseguido com facilidade.

Um facto compreensível pois encontrava-se no histórico Lugar da Passagem, tendo sido encontradas enterradas no local as mais antigas pirogas conhecidas do mundo até hoje e onde havia um grande baixio que permitia atravessar o rio a vau na maré baixa. Longe estavam os tempos de existir qualquer ponte no seu caudal.

Porém, os soldados de Décimo Juno Bruto ficaram aterrorizados porque se convenceram de que aquele era o tal rio Lethes e recusaram terminantemente sulcar aquelas águas. O mesmo centurião não perdeu a serenidade e, entendendo que se passava, chamou-os um a um, pelos seus nomes, convenceu-os de que, afinal, não era verdade o que a lenda contava.

E, desta feita, provou não ter o rio Lima poderes para provocar o esquecimento.